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Memória: Mamãe eu fui a Cuba – artigo de Andrea Neves publicado no Jornal do Brasil em 13 de outubro de 1985

Andrea Neves e Fidel Castro em CubaO avião se preparava para pousar. Do outro lado da janela, a visão ia ficando cada vez mais clara. No céu, poucas nuvens. Na terra plana, muito verde. Verde de plantação. A bordo, a delegação brasileira, convidada a participar do diálogo juvenil e estudantil da America Latina e Caribe sobre a dívida externa, dava as primeiras mostras da sua “amplitude”: enquanto algumas pessoas não escondiam a emoção outras reclamavam do cansaço, não faltando sequer quem se dispusesse a pisar o solo cubano dando vivas a Jânio Quadros.

A sessão de abertura do diálogo ofereceu ao plenário, de cerca de 700 jovens representantes de 400 organizações das mais diversas matizes ideológicas, o momento do primeiro encontro com o comandante Fidel Castro. Para os brasileiros, no entanto, ele trouxe outra surpresa. Convidado a encerrar os discursos da noite, a figura ágil e cordata de D. Pedro Casaldaglia ocupou a tribuna. Sereno ele conclamou os jovens ao sagrado exercício da rebeldia. O congresso durou quatro dias e, pela ordem, falaram pelo Brasil os representantes do PDS, PFL, PDT, PCB e PMDB.

Enquanto isso lá fora, uma havana ensolarada se oferecia aos visitantes. Para decepção dos que esperavam encontrar uma forte dose de realismo soviético, os passeios programados eram opcionais e os visitantes incentivados a descobrirem por si sós, os encantos da cidade. Uma cidade pobre. “Moça, você pode não entender, mas nós temos muito orgulho da nossa pobreza”, me disse, na rua, um senhor de 78 anos. É claro que eu entendia.

O que você achou de Cuba? Perguntaram-me as pessoas. Uma sociedade surpreendente, e ouso dizer, tendo plena consciência do quão provocativa a expressão pode suar. É claro que o país enfrenta uma série de dificuldades. Uma economia frágil, uma política de habitação que ainda não foi capaz de suprir as necessidades da área. São as mais evidentes. Mais algum tempo lá e, certamente, outras questões viriam à tona. Mas há outra realidade que salta aos olhos e que, juro, me encheu de orgulho.

Uma sociedade em que um especializado e eficaz serviço de educação e saúde é gratuitamente oferecida à população. Um país de nove milhões de habitantes em que a alimentação básica é subsidiada pelo Governo e onde se imprimem 2,5 milhões de livro a cada três meses. E isso sem falar na alegria das crianças, nas minissaias das moças e no olhar galante dos rapazes que insinuam pelas ruas. Tudo regado a muito calor, a reclamações sobre o ônibus cheio e à irreverência dos soldados que, na hora do almoço tiram a farda para um mergulho no mar.

Surpreendente porque uma sociedade não é só a infraestrutura que constrói. Ela é sobretudo os homens que cria. E aí, a coragem não é patrimônio exclusivo dos líderes da revolução, mas um dom generosamente repartido por toda a gente. Coragem e dignidade palavras-chave para se forjar o perfil de um povo. Um povo que canta, dança e se diverte com mísseis apontados para a sua cabeça.

Um país em que as crianças de quatro anos sabem que, em caso de ataque aéreo, devem colocar um lápis entre os dentes tapar os ouvidos, correr para debaixo da cama e cantar uma canção.  Que colocou na beira da praia, quase de frente para o litoral norte americano um gigantesco outdoor onde se vê, numa extremidade, o Tio Sam acuado. E na outra um cubano com os pulmões cheio de ar gritando aos quatro ventos: “Senhores imperialistas, nós não lhes temos medo nenhum”. Provocação? Infantilidade? Nada disso. Na verdade, uma gigantesca injeção de ânimo em quem passa pelo local. Mesmo porque como dizia Guimarães Rosa, pica-pau voa é duvidando do ar.

Cuba é o exemplo de uma sociedade ideal? Não creio. Mas na vida dos povos não basta apontar para o futuro justo que todos dizem almejar. É preciso se pôr a caminho. Ainda que por estradas diferentes.

“Afora isso”, é a discussão da dívida externa que infelizmente não cabe aqui. Mesmo assim me lembro de algumas intervenções que diziam que não se pode dever aquilo que não se pode pagar e faço minhas as preocupações do representante da Democracia Cristão chilena no sentido de que nosso esforço no momento deve ser garantir e aprofundar o processo de democratização dos países da América do Sul.  “Se tivermos que escolher entre a liberdade e o pão, ficaremos com a liberdade para seguir lutando pelo pão”, disse ele.

Chego em casa, desarrumo as malas e penso em como é grande o cordão da esperança. É isso aí.

Mamãe, eu fui a Cuba. E qualquer dia desses eu quero voltar. “No mais”, bate outra vez com esperanças o meu coração.

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